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Quem é você? E o que você faz aqui?

Talvez estas são as duas perguntas mais filosóficas e complexas que podemos nos fazer.

Não há como pensar nesta famosa pergunta e não lembrar do filme Tratamento de Choque. Segue o diálogo entre o terapeuta (Jack Nicholson) e o personagem principal (Adam Sandler):


“ - Nos fale sobre você! Quem é você?

- Eu sou um assistente executivo de uma grande empresa de produtos para animais.

- Não quero que nos diga o que você faz. Quero que nos conte quem você é!?

- Ah, claro! Eu sou um bom rapaz, gosto de jogar tênis de vez em quando...

- Não quero saber dos seus hobbies, de forma simples, me diga quem você é?

- Eu sou... talvez você possa me dar um exemplo do que seria uma boa resposta?

- Você quer que EU te diga quem VOCÊ é?

- Não! Hum... Eu sou um cara gentil, calmo e um pouco indeciso de vez em quando...

- David, você está descrevendo sua personalidade e eu quero saber quem você é?

- O que que você quer que eu diga????”


É comum confundirmos nossa real essência com os papéis que desempenhamos no mundo e até mesmo com a nossa personalidade. Essa confusão nos leva a frustração, depressão e aquele sentimento de vazio existencial, pois acabamos desenvolvendo uma visão limitada e solitária sobre a vida e, assim, ficamos sem perspectiva.


Sempre que reflito sobre esse questionamento vou encontrando novas possibilidades de respostas, porque acredito que estamos em um processo constante de harmonização com a nossa voz interior, isto é, estamos em busca da reconexão com a voz do silêncio que habita em cada um de nós e que tanto tem a nos dizer sobre quem somos e o que estamos fazendo aqui.


Bem, certamente não somos os papéis que desempenhamos no mundo, também não somos o nosso corpo e tão pouco a nossa mente, somos, portanto, o observador interno, o guerreiro que deveria ser ouvido, mas que foi silenciado pelas influências externas que moldam a máscara que vestimos na sociedade.


Se somos um Ser Espiritual o que fazemos num mundo material? Como estar no mundo e não ser deste mundo?


A analogia que aprendi com um mestre espiritual indiano é que devemos nos comportar como uma flor de Lótus que nasce sob a água, mas nenhuma de suas pétalas toca a água, ou seja, viva no mundo mas não seja afetado pelo mundo e suas influências materialistas.


Isso não significa fugir da realidade, afinal o que seria do mundo se todos renunciarem as suas responsabilidades e deveres da vida material? Viemos com um objetivo e uma missão a serem cumpridos, temos que desempenhar nosso papel no Universo, independente de qual seja e, então, voltaremos para casa. A verdadeira renúncia não é sobre se abster do mundo material e se distanciar das posses materiais como se fossem ruins, mas desistir da ganância, do egoísmo e da inveja que nos afastam do nosso propósito espiritual.


Embora existam muitos distrativos e desafios no nosso dia-a-dia, tudo o que faz parte da nossa vida pode e deve ser integrado como parte do nosso crescimento espiritual, mas se essas mesmas coisas forem utilizadas de forma inapropriadas, nos tornaremos miseráveis e prisioneiros do nosso próprio ego.


A forma de conectarmos o papel que desempenhamos no mundo com a nossa jornada espiritual é através do desapego desta forte identificação que temos com o nosso ego e desapego do resultado de nossas ações, isto é, realizamos nossas obrigações dando o nosso melhor, mas sabendo que não temos controle do resultado, simplesmente o aceitamos.


O caminho da ação e da conexão com o divino é o que os Hindus chamam de Karma-Yoga, que possui 4 princípios cardinais: 1) Aja nesse mundo de forma correta e tenha valores e princípios elevados; 2) tenha um objetivo espiritual e lembre-se dele na sua rotina, através de gatilhos (como imagens) que te inspirem; 3) o seu trabalho e as suas funções devem trazer algum benefício para as pessoas; 4) use o tempo que lhe resta no dia para se conectar com algo maior.


Alguns atos simples que passamos incorporar nos nossos hábitos tornam-se um elo de ligação com o Divino e nos relembram da nossa real natureza espiritual como, por exemplo, no momento da refeição que é uma necessidade do nosso corpo físico e material, podemos dispor de alguns minutos antes para agradecer o solo sagrado que germinou aquele alimento, a chuva e o Sol, desta forma, ao agradecer à natureza por prover alimentos que sustentam e nutrem nosso corpo, integramos o mundo material com a espiritualidade.


Devemos buscar o equilíbrio, sem negligenciar nenhum aspecto da vida. Temos como dever o desvendar das habilidades e facilidades que nos foram concedidas nessa encarnação para que possamos colocar a serviço da humanidade, pois há um plano Divino para cada um. Nos foi dado uma infinidade de pincéis e os mais variados tipos de tintas, contudo, precisamos saber utilizá-los, do contrário, ninguém poderá ver nossa obra e entregaremos a nossa tela em branco.


Que tenhamos nossa cabeça no céu, mas nossos pés na terra, assim, agimos, mas providos de motivações elevadas e sabendo que nossa vida é uma rara oportunidade.


Por fim, desejo que você e eu possamos realizar nossos papéis no mundo com a plenitude e a segurança de estarmos sendo guiados pelo nosso guerreiro interior que é a nossa verdadeira essência.


Até breve,

Samira Stoiani

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